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janeiro 4th, 2012
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Assessoria de Comunicação do IHAC
Espaço da Diretoria
Sergio Coelho Borges Farias
Professor Titular e Diretor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA
Ao questionar como nos situarmos diante da divisão clássica entre geografia humana e geografia física, no seu livro Metamorfoses do espaço habitado (Edusp, 2008), Milton Santos faz algumas afirmações que nos remetem ao projeto de re-estruturação curricular lançado em 2006 e implementado, no seio de alguns conflitos, na UFBA, em final de 2008, na gestão do Reitor Naomar de Almeida Filho.
A primeira afirmação do Prof. Milton Santos reforça a importância de uma formação interdisciplinar para o exercício de atividades profissionais na contemporaneidade, sejam elas quais forem. Na página 98, o Professor afirma que no processo de desenvolvimento humano “não há uma separação do homem e da natureza” e que “a natureza socializa-se e o homem se naturaliza”. Apresenta-se, assim, o desafio de aproximarmos dois grandes campos, tradicionalmente separados, regidos pela predominância da racionalidade científica: Saúde, Ciência e Tecnologia de um lado e Humanidades e Artes de outro.
No IHAC, as inter-relações desses dois grandes campos têm sido buscadas através dos Estudos sobre a Contemporaneidade e através de componentes curriculares denominados “culturas” (científicas, humanísticas, artísticas) que os estudantes dos quatro Bacharelados Interdisciplinares são levados a cursar. Mais que isso, componentes curriculares, criados no IHAC, apontam para essa integração, por exemplo: Saúde e Cidade; Artes e Mundo Digital; Estudo dos Poderes; Saúde, Educação e Trabalho; Cidades, culturas híbridas e corporeidade; Cultura e Desenvolvimento; Fundamentos de Nanociência e Nanotecnologia; Estudos do Capitalismo.
“Partindo de trabalhos individualizados de grupos, hoje todos os indivíduos trabalham conjuntamente, ainda que disso não se apercebam” (p. 97), é a segunda afirmação do Prof. Milton que nos interessa destacar nesse momento.
Além do reforço à formação interdisciplinar, trata-se de um indicativo da importância do compartilhamento de saberes e da vivência dialógica, o que se busca implementar no IHAC através de metodologias diversificadas no sentido do desenvolvimento da autonomia do educando.
Uso da Ferramenta Moodle, criação de blogs por turmas para compartilhamento de trabalhos, utilização de netbook pelos estudantes durante determinadas aulas para acesso imediato à internet, aplicação de técnicas participativas grupais, como mesas-redondas e seminários, são recursos pedagógicos já em aplicação. Está previsto para o segundo semestre de 2011 um experimento com parte da carga horária de ensino a ser cumprida à distância por algumas turmas.
A paisagem do campus altera-se com uma formação interdisciplinar permeada pela prática intensiva da pesquisa e da extensão, com atividades realizadas pelo conjunto dos 54 professores do IHAC, reforçadas por um amplo Programa de Bolsas (Pibic, Permancer, PET etc.) e de Monitoria.
Dois Programas de Pós-Graduação em funcionamento completam essa paisagem artificial, arranhada pelos problemas cotidianos advindos da ampliação do espaço físico construído, que se instaura em ritmo muito mais lento do que o do aumento das vagas de ingresso.
Prof. Milton dizia que a paisagem natural, aquela ainda não mudada pelo esforço humano, praticamente não existe. “Se um lugar não é fisicamente tocado pela força do homem, ele é, todavia, objeto de preocupação e de intenções econômicas ou políticas. Tudo hoje se situa no campo de interesse da história, sendo, desse modo, social” (p.71).
A paisagem, para Prof. Milton Santos, é, portanto, “um conjunto heterogêneo de formas naturais e artificiais; é formada por frações de ambas, seja quanto ao tamanho, volume, cor, utilidade, ou por qualquer outro critério. A paisagem é sempre heterogênea. A vida em sociedade supõe uma multiplicidade de funções, e quanto maior o número destas, maior a diversidade de formas e de atores. Quanto mais complexa a vida social, tanto mais nos distanciamos de um mundo natural e nos endereçamos a um mundo artificial” (p.71).
É nessa paisagem complexa e heterogênea que os sujeitos exercem suas funções, através de profissões regulamentadas e de ocupações. A partir de 2012, estarão no campo do trabalho centenas e, logo em seguida, milhares de pessoas, com novo tipo de formação, mit-disciplinar. O ambiente artificial e heterogêneo da universidade se espalha, assim, pelas cidades, indo além do que o mercado pede.
Milton Santos alerta que, em cada momento histórico, “os modos de fazer são diferentes, o trabalho humano vai se tornando cada vez mais complexo, exigindo mudanças correspondentes às inovações” (p.74). Vivenciar a aprendizagem em variados campos do conhecimento, dentro da própria universidade, antes de fazer a opção por um percurso profissional ou por um aprofundamento do saber em nível de pós-graduação, é uma inovação para os jovens levados a escolher sua futura profissão aos 16 ou aos 17 anos. O que resulta disso, muitas vezes, após o ingresso, é a desistência da vaga, a saída do curso. A taxa média de evasão na UFBA chega a 47%!
A flexibilidade do currículo, aliada à Orientação Acadêmica e à abordagem interdisciplinar em boa parte dos componentes curriculares amplia as possibilidades de atuação do bacharel desde o processo de formação, na sua participação nas aulas, até o ambiente de trabalho. As formas físicas envelhecem por desgaste dos seus materiais. “Já o envelhecimento social corresponde ao desuso ou desvalorização, pela preferência social por outras formas” (p. 76). Para Milton Santos, o “externo e o interno, o novo e o velho, o Estado e o mercado, são três das grandes contradições” (p. 104).
“Não existe um lugar onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A situação é uma combinação de elementos com idades diferentes. O arranjo de um lugar, através da aceitação ou rejeição do novo, vai depender da ação dos fatores de organização existentes nesse lugar, quais sejam, o espaço, a política, a economia, o social, o cultural…” (p. 106)
Os Bacharelados Interdisciplinares e os novos currículos de cursos em dois ciclos tendo o B.I. como primeiro ciclo, são agentes de uma metamorfose do espaço universitário, e situam-se no eixo de formação de uma outra cultura. “O novo nem sempre é desejado pela estrutura hegemônica da sociedade. Para esta, há o novo que convém e o que não convém. O novo pode ser recusado se traz uma ruptura que pode retirar a hegemonia das mãos de quem a detém.” (p.106)
“A chegada do novo causa um choque. Quando uma variável se introduz num lugar, ela muda as relações preexistentes e estabelece outras. Todo o lugar muda.” (p.107)
“Cada lugar tem, pois, variáveis internas e externas. A organização da vida em qualquer parte do território depende da imbricação desses fatores. As variáveis externas se internalizam, incorporando-se à escala local. Até o momento em que impactam sobre o lugar são externas, mas o processo de espacialização é, também, um processo de internalização” (p.105).
As mudanças nos processos de seleção para ingresso, passando-se das provas do Vestibular para o ENEM, a oferta de Áreas de Concentração pelas diversas Unidades, as revisões dos currículos dos Cursos de Progressão Linear para incorporação dos egressos dos Bacharelados Interdisciplinares, a criação de cursos em dois ciclos, a discussão e inserção da mit-disciplinaridade em maior escala através dos estudantes de B.I. nas turmas das demais Unidades, são, portanto, elementos indicadores da espacialização do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos e dos seus cursos como processos de internalização e de metamorfose da nossa universidade.
Referência:
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. S. Paulo: Edusp, 2008.
Espaço da Diretoria
Sergio Coelho Borges Farias
Professor Titular e Diretor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA
Essa história começa com uma pergunta clássica: “o que você vai ser quando crescer?”. Nenhuma criança escapa de ouvi-la. Mais cedo ou mais tarde, alguém, na família, na comunidade ou na escola lança essa pergunta fundamental, que se repete muitas vezes ao longo da infância e da adolescência, até que, um dia, alguém pergunta: “você é formado em quê?” ou “você trabalha com quê?”.
Pronto, quando isso ocorre, o nosso jovem personagem já se tornou adulto e parece que, nessa altura, as coisas já estão bem definidas. Só que não é bem assim. Já se verificou que quase metade das pessoas formadas num curso superior não atua profissionalmente nas áreas em que se graduaram. Sem contar com aquelas pessoas que, ao descobrirem que fizeram uma escolha inadequada, abandonam os cursos escolhidos e nem sempre tentam ingressar em outra carreira. O índice de evasão nas Universidades Públicas brasileiras está, em média, em 50%.
Mas a fundamental pergunta sobre o que a pessoa pretende ser, ou o que pretende fazer em termos de trabalho durante o resto de sua vida, torna-se mesmo fatal, é no momento da escolha do curso superior, quando se tem 16 ou 17 anos. Aquilo que era respondido sem qualquer compromisso, quase como brincadeira, “Enfermeira! Oficial da Marinha! Professora! Dentista!…” aparece agora em voz mais baixa, acompanhada de semblante preocupado, que revela dúvidas com alternativas bem distintas, como Administração ou Medicina, como Computação ou Relações Internacionais…
Um “não sei ainda…” vem muitas vezes acompanhado de um olhar que, no fundo, pergunta: “o que é que você acha?…”.
As escolhas muitas vezes são feitas no momento do preenchimento do formulário de inscrição na Universidade ou na Faculdade. A opção é feita no último momento. Alguns, entretanto, se apresentam bem seguros, e as influências de familiares e de amigos são determinantes para suas escolhas. As motivações vão desde a continuidade da profissão que prevalece na família (Medicina, Psicologia, Engenharia…) até a maior probabilidade de ter um bom retorno financeiro, conforme as expectativas atuais do mercado, como em Geologia com especialização em Petróleo, Computação, Direito. Ou ainda a estabilidade garantida por um emprego público, cujo requisito para ingresso, na grande maioria dos cargos, limita-se a um curso de nível superior qualquer.
Para o jovem de 18 a 25 anos que ultrapassa a barreira do exame vestibular para um curso profissionalizante, o choque vem em seguida. A entrada em um mundo novo, que revela aos poucos suas regras, os desafios de um campo profissional, resulta muitas vezes numa frase também clássica: “não era bem isso que eu queria”…
Os estudos das matérias, separadas umas das outras, no Ensino Médio, não servem de base para uma escolha qualificada. Um estudante que estuda Química com prazer tem como alternativa mais natural o ingresso num curso de Engenharia Química? Por que não no de Farmácia? Ou na Licenciatura em Química? Por que não ficaria mais realizado utilizando a Química na Ecologia? Ou na Engenharia de Produção?
Barreiras a superar
O percurso que vai da educação infantil até a formatura em nível superior é repleto de barreiras, internas e externas, que vão selecionando os que pretendem chegar até o que se supõe ser “o alto da pirâmide educacional”.
As barreiras internas são conhecidas. Houve um tempo em que elas apareciam em forma de exame. O Exame de Admissão ao Ginásio, para aqueles que concluíam o Curso Primário, é hoje apenas um fantasma inofensivo. Foi assustador até os anos 60. Naquela época, para os que venciam as dificuldades para permanecerem na escola, entrar no Ginásio não era para qualquer um.
As barreiras internas atuais continuam sendo de ordem pedagógica, mas são como doenças que não doem. Elas vão sendo colocadas sutilmente através do descaso dos dirigentes políticos com a ação educativa pública e através da desvalorização da profissão docente com baixos salários e falta de condições materiais de trabalho. Professores da Rede Pública, em conseqüência, reforçam essa desvalorização, faltando a aulas, tratando estudantes como casos perdidos, desinteressando-se pela efetiva aprendizagem. É assim que os sujeitos vão ficando pelo caminho, desistindo de investir na aquisição de algo que não conseguem apreender ou passando de ano sem saber quase nada. A discriminação que sofrerá na sociedade e o fracasso nas tentativas de ingresso no ensino superior são as conseqüências previsíveis e as formas de eliminação daqueles que “fracassam”. Em geral, são os mais pobres.
Quanto às barreiras externas, que levam à evasão, as mesmas giram em torno das precárias condições de saúde e da necessidade de trabalhar precoce e intensamente, muitas vezes para sustento da família. Apesar desse quadro, a chamada universalização do ensino fundamental e a ampliação da oferta do ensino médio, ao longo da história recente, acrescidas das alternativas de Supletivo, EJA, Classes de Aceleração, dentre outros projetos, associadas à expansão das instituições particulares de ensino, têm levado multidões às portas do ensino superior.
Não são poucos os que se debatem com as inúmeras alternativas no momento da escolha de um curso. Praticamente nada se estuda, na Educação Básica, acerca de Arquivologia, Gestão Social, Fonoaudiologia, Mecatrônica, Geofísica, Secretariado, Moda, Fisioterapia, Economia, Zootecnia, Museologia, Oceanografia, dentre muitos outros Bacharelados ou cursos profissionalizantes que aparecem nos cardápios oferecidos aos candidatos a ingresso no nível superior de ensino. Os resultados são opções por cursos que levam a profissões já bem conhecidas ou opções por cursos com baixa relação candidato/vaga, que facilitem a entrada no novo mundo do ensino superior.
Nova engenharia curricular
Estudos universitários gerais, que envolvam as diversas áreas de conhecimento, articuladas ou não, que possibilitem posteriormente a entrada com maior segurança em cursos profissionalizantes, apareceram recentemente como um caminho para que o jovem universitário faça uma escolha mais acertada. A forma que vem sendo adotada em várias instituições de ensino superior para se chegar a isso é a do Bacharelado Interdisciplinar.
A idéia se aproxima do College norte-americano e do Bachelor, adotado na União Européia, instituído pelo Processo de Bolonha. Nesses formatos, três anos de formação geral compõem a base dos estudos universitários. Entende-se que a Universidade não é apenas o lugar para uma formação profissional específica. Universidade é o locus privilegiado para o exercício da pesquisa, da cultura, das artes e técnicas, do compromisso social e também da formação profissional.
Verifica-se que o sistema universitário brasileiro atual, de modo geral, promove a titulação, não a educação. Busca-se nele a ascensão social, o prestígio através da aquisição de um diploma.
A entrada num ambiente que reúne um universo de conhecimentos pressupõe a chance de conhecer esses inúmeros campos do saber. A opção por um curso, feita antes de se conhecer o conjunto do que se oferece, leva comumente a frustrações e a desperdício de potenciais. Transferências entre cursos são complicadas e o mais comum é o abandono do curso e a posterior ocupação de nova vaga, com o re-ingresso, quando é o caso.
O Bacharelado Interdisciplinar, conhecido como B.I., como está estabelecido nos Referenciais Curriculares aprovados pelo Conselho Nacional de Educação, em 7 de julho de 2011, prevê a incursão do estudante nas mais variadas áreas do conhecimento, além de uma formação básica interdisciplinar. Busca-se desenvolver sua capacidade de comunicação e seu senso crítico, levando-o a fazer correlações entre as várias áreas.
Um candidato inicialmente atraído pelas Artes Visuais, realizando previamente estudos gerais, pode se re-direcionar para Cinema, para Moda ou Arte e Tecnologia. Um optante pela Área de Saúde pode se encaminhar depois para a Gastronomia. Um aficionado das Ciências da Computação pode se interessar em aplicá-la à Administração, à Economia ou à Engenharia. Ademais, é preciso considerar que escolher o que estudar e definir sua profissão significa também marcar presença na cena social.
Adotar o Bacharelado Interdisciplinar como primeiro ciclo de estudos, que antecede a formação profissional específica, é uma forma de instrumentalizar sujeitos, na maioria com 17 ou 18 anos, que precisam optar por um curso sem conhecer grande parte das alternativas.
O primeiro ciclo, ocupado pelo Bacharelado Interdisciplinar, deve ser, portanto, o espaço de formação universitária onde um conjunto importante de competências, habilidades e atitudes, articuladas com as competências técnicas, aparecem aliadas a uma formação geral com bases conceituais, éticas e culturais.
O segundo ciclo de estudos tem caráter opcional, e está voltado para uma formação profissional numa área específica do conhecimento. O diplomado do B.I. ingressa nesse segundo ciclo após ser avaliado de forma processual e contínua, ao longo das 2.400 horas mínimas do B.I.
O terceiro ciclo compreende a pós-graduação stricto sensu, que poderá contar também com alunos interessados na pesquisa e na formação acadêmica saídos diretamente do Bacharelado Interdisciplinar.
A idéia de implantar uma formação graduada em ciclos nas universidades brasileiras surge em um contexto marcado pela política de ampliação do número de matrículas na educação superior. Em 2007, o MEC institui o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o REUNI, induzindo as instituições a realizarem inovações acadêmicas.
O domínio das diversas linguagens, as culturas científicas, humanísticas e artísticas, o conhecimento do mundo natural e do social, a orientação acadêmica e profissional são as bases do currículo do B.I., com alto grau de flexibilidade, o que permite ao aluno percorrer as mais diversas Unidades de Ensino. Na Universidade Federal da Bahia significa inserção em Institutos Básicos, como o de Geociências, o de Letras e o de Ciências da Saúde, passar por Faculdades, como as de Odontologia, Ciências Contábeis, Arquitetura, freqüentar Escolas profissionalizantes, como a Politécnica e as de Enfermagem, Teatro e Administração. Na UFBA, são ao todo 32 Unidades de Ensino que podem ser conhecidas antes da opção pelo curso profissional ou pelo segundo ciclo de estudos.
A adoção de Áreas de Concentração, na segunda metade do B.I., garante um aprofundamento de determinado campo de conhecimento, proporcionando, aos bacharéis que se formam um qualificativo nessa primeira graduação que pode abrir espaços de atuação em diversos campos de trabalho, enquanto dão continuidade aos estudos, em cursos profissionalizantes ou também em pós-graduação.
Os Currículos de B.I. na Universidade Federal da Bahia são organizados em quatro grandes áreas do conhecimento – Artes, Humanidades, Saúde e Ciência e Tecnologia, superando a concepção linear de aprendizagem, evitando a abordagem fragmentadora do saber, passando a considerar e valorizar a complexidade da natureza, da sociedade, da subjetividade, na perspectiva de uma formação integral.
A oferta de vagas em cursos noturnos e as políticas de ações afirmativas, além de ampliar a quantidade de estudantes, alteram também o perfil dos que ingressam no ensino superior público. Modelos de formação inspirados na universidade européia do século XIX, já superados em seus contextos de origem ainda são, entretanto, plenamente adotados na maioria das universidades brasileiras.
A complexidade e a diversidade culturais do mundo contemporâneo requerem maior espaço para a formação geral. Prevalece ainda uma visão educativa que não contempla questões emergentes da natureza, da sociedade, da estética e da subjetividade. A ênfase na profissionalização precoce dos estudantes acaba por fragilizar o que seria um espírito universitário, valorizando mais os valores próprios inerentes a cada profissão, restringindo-se ao caráter instrumental dos saberes.
A passagem para uma graduação em dois ciclos, sendo o primeiro deles composto pelo Bacharelado Interdisciplinar, coloca o sistema educacional brasileiro em sintonia com os sistemas adotados em países social e economicamente mais desenvolvidos, facilitando, inclusive, os intercâmbios e a mobilidade de estudantes entre instituições.
A ciência, no Ocidente, produziu campos disciplinares cada vez mais rigidamente delimitados, como se fossem territórios, demarcados e controlados por seus inventores. A ciência se desenvolveu no sentido de definir especialidades, tanto pela criação de novas disciplinas, quanto pelas subdivisões daquelas já existentes.
Num tempo em que o conhecimento científico e técnico desdobra-se, ramifica-se e especializa-se cada vez mais, pode parecer contraditória a proposta de estudos gerais universitários, num primeiro ciclo, antes da formação profissional específica, a ser obtida num segundo ciclo.
A proposta dos Bacharelados Interdisciplinares como primeiro ciclo de estudos tem como pressuposto a necessidade de se conhecer amplamente o contexto de cada problema a ser tratado, além dos conhecimentos científicos e técnicos, para que o sujeito profissional criador não esteja alheio ao objeto da ação. Não há, portanto, contradição entre o saber especializado e uma sólida formação geral.
As artes, as ciências sociais e as ciências naturais e da saúde, consideradas como elementos de cultura, desenvolvem-se segundo dinâmicas particulares, com criações adequadas às suas próprias linguagens e formas narrativas.
O modo científico, por um lado, lida com conceitos e categorias, compreensão e explicação, leis de causa e efeito. Os artistas, por outro lado, mobilizam figuras e figurações de linguagem, sons e cores, movimentos e montagens, metáforas e alegorias.
O sistema das três culturas, aplicado à educação, traduz a complexidade das sociedades contemporâneas, reunindo saberes que não são contraditórios nem complementares. O sujeito capaz de articular campos variados de conhecimento e entender o complexo mundo em que vive tem maiores possibilidades de exercer novas ocupações, adequando-se de maneira mais eficiente aos processos do mundo do trabalho.
O currículo do B.I. foi composto no sentido de levar o estudante a ler e interpretar textos de maneira crítica, escrever com clareza, precisão e fluência, usar números para resolver problemas reais, acessar elementos de outras culturas conhecendo línguas estrangeiras, fazer e apreciar arte, cultivar a sensibilidade e a criatividade e atuar em equipe. Os métodos adotados devem apontar na direção de uma autonomia que dê suporte para um desempenho de ocupações diversas que mobilizem, de modo flexível, conhecimentos, competências e habilidades.
Ao ingressar num curso de formação profissional, para complementar os estudos já iniciados numa determinada área, o bacharel formado pelo B.I., convivendo com os que acabam de concluir o ensino médio, alcança patamares mais elevados de aproveitamento que o qualificam melhor para trabalhar e encontrar soluções para os problemas que ocupam nossa existência individual e coletiva. Supera-se, assim, a visão de universidade como agência formadora de mão-de-obra para a atividade produtiva, para se retomar sua missão fundamental de formação integral de indivíduos e de cidadãos.
As empresas já adotam mecanismos de seleção de candidatos para admissão que verificam a capacidade de resolver problemas, atuar em equipe e a criatividade. Em pouco tempo a oferta de força de trabalho já estará apresentando nitidamente esse diferencial: existirão os que tiveram uma formação universitária geral interdisciplinar e depois se especializaram e aqueles que investiram apenas numa formação profissionalizante, em geral mono-disciplinar.
Situar-se nessa nova cena exige dos interlocutores envolvidos prontidão, perspicácia e flexibilidade. Tornam-se necessárias alterações no ambiente e nas relações pessoais, para adequação das ações universitárias à nova espacialização, constituída pelo Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, da Universidade Federal da Bahia – IHAC e por outras instituições que já implantaram o B.I., adotando-o como uma nova engenharia curricular.
Essa modalidade de educação foi implantada antes na Universidade de Brasília, instituição nova, criada em 1961 através da Lei 3.998, assinada pelo Presidente João Goulart. Em 1965, o currículo, que era inovador no Brasil, foi desarticulado pelo governo militar.
Em 1971, no reitorado do Dr. Roberto Santos, a Universidade Federal da Bahia adotou algo semelhante, instituindo o Ciclo Básico. Em cada grande área do conhecimento os estudantes cursavam matérias nucleares durante o primeiro ano, para optarem por um dos cursos profissionalizantes somente ao final do ano, fazendo uma prova caso houvesse mais candidatos que vagas nos cursos mais concorridos, havendo, portanto, necessidade de seleção.
A modalidade curricular do Ciclo Básico de um ano foi abatida já no ano seguinte por um vigoroso Movimento Estudantil, que exigiu vagas extras nos cursos mais concorridos para atender a todos que optaram pelos mesmos. O provão, do final do primeiro ano, que avaliava conhecimentos referentes às disciplinas nucleares de cada grande área, foi atacado como forma inadequada de avaliação.
Os objetivos do Ciclo Básico, estabelecidos no contexto da Reforma Universitária de 1968 e do Acordo MEC-USAID, eram voltados mais para a racionalização da oferta de vagas em matérias comuns a diversos cursos do que para a formação interdisciplinar. Entretanto, da mesma forma que o B.I., dava a chance ao estudante de conhecer e experimentar a universidade durante um ano antes de optar pela formação específica profissional.
Isso e aquilo em vez de isso ou aquilo
As dualidades homem e natureza, ciências e humanidades e artes e técnicas foram se constituindo gradativamente ao longo da história. No IHAC-UFBA, as inter-relações desses dois grandes campos têm sido buscadas através dos Estudos sobre a Contemporaneidade, dos estudos da Língua Portuguesa numa nova perspectiva e através de componentes curriculares denominados “culturas” (científicas, humanísticas, artísticas) que os estudantes dos quatro Bacharelados Interdisciplinares são levados a cursar.
Os componentes curriculares, criados no IHAC, expressam essa integração, como por exemplo: Trabalho, Economia e Cidade; Cultura e Cooperação Internacional; Sistemas Digitais em Artes; Estudos das Subjetividades; Campo da Saúde, Saberes e Práticas; Cidades, Culturas híbridas e Corporeidade; Computação Aplicada; Fundamentos de Nanociência e Nanotecnologia; Estudos do Capitalismo, dentre outros.
A multi, a inter e a transdisciplinaridade não são exclusividades do IHAC. Na UFBA elas ocorrem também nas diversas Unidades de Ensino, em parte através de interdisciplinas criadas em 2008, por solicitação da Reitoria, quando o B.I. foi instituído. Foi assim que surgiram Globalização e território, Água, natureza e vida, Energia e meio ambiente, Língua Portuguesa, poder e diversidade, Aspectos sócio-culturais da alimentação e da nutrição, dentre outras.
A configuração de uma nova presença na cena dos estudos universitários e na cena do campo do trabalho coloca-se como desafio para os que participam dessa nova configuração curricular. A construção da presença é um fator de cultura. Ela começa com a garantia da atenção.
O sujeito atento capta os estímulos do ambiente, que inclui os outros seres humanos e suas mensagens. Estimulado, o sujeito decodifica elementos da comunicação e dá respostas, cada vez mais qualificadas, pois são sínteses de processos emocionais e cognitivos que levam em conta o que se encontra na sua memória e compõe a sua história de vida e a sua visão de mundo.
Consciente dos valores de suas respostas e dos elementos que capta do seu entorno, o sujeito, passo a passo, vai constituindo um sistema de valores, que serve de base para a defesa de suas idéias. Dessa maneira vai se caracterizando enquanto ser no mundo, vai se auto-conhecendo e se identificando enquanto sujeito social, político, cultural. Consciente de seu lugar no mundo, ele presta atenção ao seu entorno, e o ciclo recomeça.
Presença, figuração e não-presença na cena universitária
Ouvir o outro é fundamental para que ocorra o diálogo. Os que tudo criticam e se mostram impacientes com reuniões, por exemplo, em verdade não estão dispostos a ouvir. Não se conformam que outros tenham a palavra. Acham sempre que os outros falam muita bobagem.
Os que tudo criticam não prestam atenção. Elaboram quase o tempo todo somente respostas que se configuram como verdades. Gostam de muito pouca coisa, alguns não gostam de nada, em geral pensam que somente eles sabem o que é certo e somente eles fazem coisas boas. Suas respostas são muitas vezes pré-fabricadas. O fato é que, se não ouvem os outros, não prestam atenção, não alcançam a empatia.
Os reclamantes crônicos são personagens simples, não se transformam ao longo do enredo, como os personagens complexos, do drama. Com suas queixas constantes, reivindicam um mundo pronto, todo certinho, para eles próprios se aproveitarem, é claro.
Os reclamantes, em geral, recusam-se a ocupar cargos. Apesar de terem ás vezes alguns modelos e desejarem o novo, isentam-se da responsabilidade de construírem conjuntamente alguma coisa. Pensam que os outros é que devem fazê-lo. Ficam nos papéis de figurantes. O enfrentamento de desafios, a superação de obstáculos, a construção coletiva de uma sociedade mais justa, a busca da felicidade geral, não estão em seus horizontes.
Estar presente, pelo contrário, é situar-se. É atuar no espaço contextualizado, é chamar atenção. E essa sempre foi uma prerrogativa do ator. O ator, para sobreviver em cena, precisa dialogar. Se não ouve o público, se não percebe sua vibração para entrar em sintonia com ele, e tocá-lo, não passará de uma figura solitária, sem provocar emoções e aprendizagens, sem aplausos.
As técnicas aplicadas na formação do ator devem levar à dilatação de seu corpo. Respirar plenamente, por exemplo, é fundamental. Com a técnica, o ar aspirado não deve ser sentido somente nos pulmões, a sensação deve ser a de que o ar se espalha no interior do corpo e se encontra presente em cada célula. As técnicas de alongamento contribuem para o estado de dilatação e para a agilidade na execução dos movimentos.
O ser que se comunica deve perceber o que se encontra no ambiente e posicionar-se adequadamente. Os movimentos corporais são aprendidos e têm significados. Posicionamento, Mobilidade, Flexibilidade, Agilidade, Treinamento e Prontidão são categorias presentes na formação do ator e se aplicam a todos que desejam se comunicar eficazmente. O pensamento do ser que se expressa, uma espécie de subtexto, é norteador de uma ação interior, que por sua vez é uma espécie de alma daquilo que é visivelmente ou oralmente expresso.
A atitude corporal e a voz colocada adequadamente no espaço, associadas à compreensão do texto a comunicar, possibilitam a irradiação. Respiração, emoção e ritmo, associados às técnicas de movimentação corporal levam a uma pulsação, a uma vibração em cena. Havendo sintonia entre a pulsação do artista e a do público, ocorre a comunicação essencialmente emocional.
A obra de arte toca, assim, o público. Deflagra-se no espectador um processo de imaginação, acompanhado de emoções. As emoções articuladas aos processos cognitivos, baseados na linguagem, levam ao prazer estético. A incorporação dessa vivência amadurece o sujeito em termos de cognição e de sensibilidade. Ele então, ao ser novamente estimulado, presta atenção de maneira diferente, mais elaborada, e o ciclo da sua caracterização como ser social, agente de mudanças, recomeça.
Quem vivencia processos de aprendizagem integrais, transitando nos variados campos do saber, tem melhores condições de optar. Presença cênica no palco e presença social na vida cotidiana parecem coisas bem distintas. Mas aprendemos que a vida é um jogo, que o mundo é um palco, e nele representamos vários papéis, com entradas e saídas de cena. Atuar na cena social requer disposição para lidar com os desafios e os riscos.
As propostas curriculares e as ações que as concretizam são como obras de arte. Com o Bacharelado Interdisciplinar busca-se uma formação integral, com a vivência das várias culturas, com a possibilidade de experimentar a aprendizagem em diversos campos. Não se elimina a especialização. A profissionalização, muito importante, ocorre num horizonte mais aberto e articulado.
Na Universidade, como na vida, podemos passar despercebidos e podemos marcar presença. A escolha do caminho faz o novo acontecer.
Espaço da Diretoria
Sergio Coelho Borges Farias
Professor Titular e Diretor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA
Um dos desafios que se apresentam para os que se situam no campo profissional da arte-educação (e nesse sentido estou me referindo às artes de modo geral, as visuais, audiovisuais, teatrais, corporais, performáticas, circenses, musicais…) é a forma de definir e de lidar com a mit-disciplinaridade.
Embora vivamos, no cotidiano, essa coisa, já que na vida tudo está ou pode estar relacionado, cada vez que se fala nessa coisa, sempre alguém ressalta que “precisamos definir isso que se chama de mit-disciplinaridade…”.
Como reconheço a dificuldade em compreender esse conceito, e essa dificuldade pode ser, inclusive, uma resistência intuitiva a romper os muros que separam as disciplinas, gosto de partir da definição simplificada de: disciplina, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade, para chegar finalmente à idéia de percurso mit-disciplinar.
As disciplinas, ou campos de saberes, ou áreas de conhecimento, foram se constituindo ao longo da história da humanidade, inclusive no sentido de organizar uma quantidade cada vez maior de informações e de permitir um maior aprofundamento em cada campo do saber.
Cabe aqui uma referência a Michel Maffesoli, que se refere à profundeza das aparências e ao valor do conhecimento comum para chamar atenção para a riqueza dos elementos, que parecem ser superficiais, banais, ou apenas aparentes, mas que podem se constituir como componentes importantes dos processos de pesquisa.
Já há algum tempo a filosofia da ciência e, consequentemente, a metodologia de pesquisa abriram espaço para as chamadas abordagens (mais) qualitativas.
As alterações no modo de ver a pesquisa, com o reconhecimento das articulações entre os vários elementos constituintes do objeto de estudo, vistos sob várias e diversas perspectivas, implicaram na elaboração de conceitos como os de complexidade e de multi-referencialidade. Ambos os conceitos podem também ser tomados como bases para o reconhecimento da necessidade da mit-disciplinaridade.
Sendo todo objeto complexo, como abordá-lo com referências exclusivas de um só campo de estudo?
Como estudar um objeto em sua completude, tendo que recortá-lo para caber numa disciplina?
Como recorrer a múltiplas referências sem percorrer múltiplos campos de saber?
Ao pensarmos nesses temas e questões mencionados acima, começa a parecer mesmo um contra-senso essa separação rígida entre as variadas formas ou linguagens ou modalidades das artes, assim como entre as artes e os demais campos ou áreas, sejam elas do grupo das humanidades ou das ciências.
A cena sempre se constituiu como locus privilegiado para a integração das artes, podendo ali aparecer, reunidos e articulados: a palavra, o corpo, o som, o objeto, a tecnologia, expressos através do texto, da interpretação, da dança, dos elementos plásticos e audiovisuais, da música.
Cabe, entretanto, ressaltar a importância do avanço do conhecimento científico que resulta do aprofundamento em determinados campos específicos. Sabemos que as verdades ou certezas se constituem através de processos organizados de produção de conhecimento, mas sabemos também que elas são verdades, de acordo com determinados princípios e valores.
Retomando a questão da configuração das disciplinas, que vem de longo tempo, pode-se dizer que a mesma foi acentuada com a fundação da ciência, com a prevalência do racionalismo e todos os seus desdobramentos, como o iluminismo, cientificismo, positivismo… já que o livre pensar articulado dos filósofos/matemáticos/artistas gregos, por exemplo, derivou para a busca de apropriação de uma verdade pré-existente, comprovada, definida, com uma precisão baseada em medições, cálculos, comparações, afirmações positivas, dentro de cada área de conhecimento. Não é fácil, imerso no racionalismo, compreender e aceitar que possam ter convivido harmoniosamente coisas tão distanciadas atualmente como a filosofia e a matemática.
Atualmente a tabela do CNPq para a classificação das produções acadêmicas contém mais de 1400 sub-áreas catalogadas, agrupadas em áreas e grandes áreas. Por ocasião de uma tentativa de um dirigente do órgão, por volta de 2005, de reestruturar as áreas, extinguindo, agrupando ou ampliando as sub-áreas ocorreu um grande alvoroço entre os pesquisadores, cada qual tentando incluir ou manter seu pedaço, sua especialidade. Cabe assinalar que a distribuição dos recursos financeiros para a pesquisa leva em conta essa organização em áreas.
Como as delimitações dos campos do saber perderam sua rigidez na prática, a cada dia novos campos de conhecimento vão se configurando, com cada campo interdisciplinar se constituindo como nova “disciplina”, o que poderia (poderá) levar a tal tabela do CNPq a apresentar milhares de especialidades dentro em breve.
Mas o que nos interessa aqui, no momento, é a definição descomplicada daqueles termos anunciados no início do presente texto. Então comecemos com a multi-disciplinaridade, que pode ser vista como a utilização de conceitos, fundamentos, bases filosóficas, procedimentos e recursos de várias disciplinas numa articulação de saberes diferenciados e supostamente independentes. Ao se estudar um fenômeno referente ao meio ambiente, utiliza-se elementos da Química, da Biologia, da Economia, da Geografia e assim por diante.
No caso da interdisciplinaridade, os elementos de duas ou mais disciplinas são misturados, numa espécie de amálgama, havendo dificuldade de se definir de qual disciplina cada qual foi retirado como é o caso dos estudos sobre a ecologia, a contemporaneidade, as relações internacionais, o imaginário, o gênero, a energia, a estética. É nesse sentido, pela dificuldade de classificar esses campos configurados mais recentemente que as abordagens interdisciplinares podem acabar se constituindo como novas disciplinas.
Finalmente chegamos ao “T”. A transdisciplinaridade seria, então, o livre trânsito entre os vários campos do saber, como se não existissem as fronteiras e os territórios que dão nome às especialidades, sejam elas disciplinares ou interdisciplinares. É claro que isso exige um desprendimento, um desapego às bases já constituídas, e isso requer uma mudança de mentalidade em relação à segmentação dos processos de composição do conhecimento.
A mit-disciplinaridade, sendo o conjunto das várias abordagens (multi-inter-trans) descritas acima, não implica, portanto, na extinção das disciplinas, mas num novo olhar sobre as mesmas.
As proposições da física quântica influindo nas correntes mais recentes da filosofia contemporânea, e vice-versa, apontam para uma reversão do cientificismo, da hiper-racionalidade, retomando e valorizando nos processos de produção de conhecimentos, além do pensamento, outras habilidades humanas fundamentais, como as sensações, os sentimentos e a intuição.
A chamada pós-modernidade abre espaço para que a sistematização do saber passe da opção (racional) entre isso ou aquilo, para isso e aquilo, como na física quântica. A intensificação do saber passa de uma forma de raiz (aprofundamento) para uma forma de rede (articulação de saberes).
Tal postura filosófica repercute no meio artístico, com a opção pela forma híbrida evento performático em vez de peça teatral, concerto, exposição ou coreografia, embora todas essas formas continuem existindo e emocionando públicos os mais variados.
As mudanças na disposição espacial dos espetáculos, com a diluição da diferença entre palco e platéia e a retomada da natureza ritual da arte, com envolvimento direto do público, favoreceram a idéia do evento performático como expressão cênica transdisciplinar, em sintonia com as idéias características da chamada pós-modernidade.
O desafio para o artista e educador, nas oficinas, nos quadros curriculares, nos trabalhos de ação cultural, é aplicar essa nova perspectiva na sua vivência, sem descartar o conhecimento acumulado em termos de arte, de pedagogia, de autonomia, de contexto, de crítica, de memória, de subjetividade, com a possibilidade legítima de aprofundamento num campo específico e recortado, mas de olho no entorno, no mundo todo, de olho também nas superfícies, nas aparências.
Notícias, Áreas de concentração
Seguem abaixo as versões oficias aprovadas das Áreas de concentração do IHAC
(atualizado em agosto/2011)
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